Desabafo por um tempo perdido

Finalmente faltam 5 dias para as minhas férias e 7 dias para eu finalmente realizar mais um sonho, rodar pelo Nordeste de moto.

Diante da proximidade da grande viagem,  escolhi ficar em casa nesse final de semana, preciso fazer uma média com a família né... afinal logo ficarei o mês inteiro fora \o/.

A ansiedade e a expectativa são imensas, conto cada minuto, mas estou com os pés no chão...., é.... pelo menos acho que estou. Sei que a viagem não será algo confortável, vamos ficar muito tempo pilotando, vamos dormir em lugares bem simples e com regularidade levantando barraca, dormindo ao relento mesmo. Almoçando em lugares baratos e vai saber o que mais está por vir, mas sinceramente, cada esforço valerá a pena, nenhuma viagem de avião ou hotel luxuoso oferece a oportunidade de conhecer e viver realmente uma viagem, as coisas simples e as pessoas do dia a dia são sempre mais recompensadoras.

Pensando na viagem, recentemente lí um texto muito interessante que vale a pena conferir, com certeza a leitura não será "um tempo perdido", e pensar sobre isso, pode, quem sabe, inspirar outros a também aproveitar mais cada momento, e talvez, entender "esse tal de motociclista".


"Estranho personagem, esse tal de motociclista. Difícil crer que seja possível preferir o desconforto de uma motocicleta, onde se fica instavelmente instalado sobre um banquinho minúsculo, tendo que fazer peripécias para manter o equilíbrio e torcendo para que não haja areia na estrada. 

Como podem achar bom transportar o passageiro, dito garupa, sem nenhum conforto ou segurança, forçando o coitado a agarrar-se à pança do motociclista, sujeitando ambos a toda sorte de desconfortos, como chuva, ou mesmo aquela “ducha” de água suja jogada pelo carro que passa sobre a poça ao lado, ou de ficarem inalando aquele malcheiroso escapamento dos caminhões em uma avenida movimentada como a marginal Tietê, por exemplo, sem falar da necessidade de se utilizar capas, casacos e capacetes, mesmo naqueles dias de calor intenso.

Isso tudo enquanto convivemos numa época em que os automóveis nos oferecem toda sorte de confortos e itens de segurança. Ar-condicionado, que permite que você chegue ao trabalho sem estar fedendo e suado; “air bags”, barras laterais, cintos de três pontos, etc., que conferem ao passageiro uma segurança mais do que necessária; som ambiente; possibilidade de conversar com os passageiros (os passageiros...) sem ter que gritar e assim por diante.
Intrigante personagem, esse tal de motociclista.

Apesar de tudo o que disse acima, vejo sempre em seus rostos um estranho e particular sorriso, que não me lembro de haver esboçado quando em meu carro, mesmo gozando de todas as facilidades de que ele dispõe.

Passei, então, a prestar um pouco mais de atenção e percebi que, durante minhas viagens, motociclistas, independente de que máquinas possuíssem, cumprimentavam-se uns aos outros, apesar de aparentemente jamais terem se visto antes daquele fugaz momento, quando se cruzaram em uma dessas estradas da vida. Esquisito...

Prestei mais atenção e descobri que eles freqüentemente se uniam e reuniam, como se fossem amigos de longa data, daqueles que temos tão poucos e de quem gostamos tanto.

Senti a solidariedade que os une. Vi também que, por baixo de muitas daquelas roupas de couro pesadas, faixas na cabeça, luvas, botas, correntes e caveiras, havia pessoas de todos os tipos, incluindo médicos, juízes, advogados, militares, etc. que, naquele momento, em nada faziam lembrar os sisudos, formais e irrepreensíveis profissionais que eram no seu dia a dia. Descobri até alguns colegas, a quem jamais imaginei ver paramentados tão estranhamente.
Muito esquisito...

Ao conversar com alguns deles, ouvi dos indizíveis prazeres de se “ganhar a estrada” sobre duas rodas; sobre a sensação deliciosa de se fazer novos amigos por onde se passa; da alegria da redescoberta do prazer da aventura, independente da idade; e da possibilidade de se ser livre e alegre, rompendo barreiras que existem apenas e tão somente em nossas mentes tão acostumadas à mediocridade.

Vi, ouvi e meditei sobre o assunto... mudei minha vida...

Maravilhoso personagem, esse tal de motociclista.

Muitas motos eu tive, mas jamais fui um verdadeiro motociclista, erro que, em tempo, trato agora de desfazer.

Mais que uma nova moto, a moto dos meus sonhos.

Mais que apenas uma moto, o rompimento dos grilhões que a mim impunham o medo e o preconceito e que por tanto tempo me impediram de desfrutar de tantas aventuras e amizades.

Deus sabe o tempo que perdi e as experiências que deixei de vivenciar.
Se antes olhava-os com estranheza, mesmo sendo proprietário de uma moto (mas não um motociclista), vejo-os agora com profunda admiração e, quando não estou junto, com uma deliciosa pontinha de inveja.

O interessante, é que conheço pessoas que jamais possuíram moto, mas que estão em perfeita sintonia com o ideal motociclista. Algumas chegam até mesmo a participar de encontros e listas de discussão, não que isto seja imprescindível ou importante. O que importa é a filosofia envolvida.

Hoje, minha esposa e eu, montados em nossos sonhos, planejamos, ainda timidamente, lances cada vez maiores, sempre dispostos a encontrar novos velhos amigos, que certamente nos acolherão de braços abertos.

Talvez, com um pouco de sorte, encontremos algum motorista que, em seu automóvel, note e ache estranho aquele personagem que, passando em uma motocicleta, com o vento no rosto, ainda que sob chuva ou frio, mostre-se alheio a tudo e feliz, exibindo um largo e incompreensível sorriso estampado no rosto.

Quem sabe ganhemos, então, mais um irmão motociclista para o nosso grupo.


Fernando Drummond / São José dos Campos-SP"

fonte : http://www.ciceropaes.com.br/texto_desabafo.html

Comentários

  1. Esse texto eu ja o conhecia e fala tudo, legal vc ter postado, isso me leva a pensar mais um pouco sobre tudo, muito bacana.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

18/11 - Ushuaia, o sonho realizado

16/11 - Rumo a Ushuaia, mas incompletos

15/11 - O dia que as coisas não saíram como o planejado